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Pesquisador do HGRS descreve primeiro caso de glaucoma congênito decorrente do Zika vírus

30/11/2016 14:09

Oftalmologista do Hospital Geral Roberto Santos (HGRS), na Bahia, o pesquisador Bruno de Paula Freitas publicou, na revista Ophthalmology dessa terça-feira (29), um trabalho que descreve o caso inédito de glaucoma congênito decorrente do Zika. O periódico, que pertence à Academia Americana de Oftalmologia (AAO – American Academy of Ophthalmology), é considerado um veículo de grande impacto internacional e traz, na nova edição, o alerta sobre os efeitos, cada vez mais, surpreendentes e devastadores do vírus.

“Essa é a primeira vez que é descrito na literatura científica a presença de glaucoma congênito em um bebê com comprovada infecção pelo Zika vírus. Doença rara e grave, pois pode levar à cegueira permanente, o glaucoma congênito é caracterizado pelo aumento da pressão intraocular em crianças portadoras de má formação nos olhos”, explica o médico.

Para chegar à conclusão do trabalho científico, Freitas contou com a parceria de pesquisadores da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), da Universidade de Yale (EUA) e dos laboratórios da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Evandro Chagas (IEC). Juntos, os autores relatam, na pesquisa, o caso em um bebê de três meses de idade, nascido em Salvador (BA), com sorologia positiva para Zika vírus e negativa para dengue e outras possíveis causas de infecções congênitas. “A criança apresentava microcefalia, alterações dos membros inferiores, além de outras alterações cerebrais, como o desenvolvimento incompleto do corpo caloso e lisencefalia, também conhecido por ‘cérebro liso’, devido à falta de sulcos e reentrâncias que observamos em um cérebro normal”, lembra o profissional do HGRS.

O oftalmologista conta, ainda, que a criança estudada apresentava aumento do globo ocular direito, associado à fotofobia (sensibilidade exacerbada à luz), e lacrimejamento persistente, bem como irritabilidade constante: “os exames acusaram aumento significativo da córnea do olho direito em relação ao esquerdo. A pressão intraocular do olho alterado estava de 30 mmHg e de 14 mmHg, no olho esquerdo. A córnea do olho direito também apresentava um aspecto ‘azulado’, consequência do importante edema causado pelo aumento da pressão intraocular”.

O bebê avaliado foi submetido à trabeculectomia, cirurgia para tratar o glaucoma congênito do olho direito. Isso fez com que a pressão intraocular fosse normalizada, o edema corneano reduzido e melhorasse a irritabilidade, a fotofobia e o lacrimejamento.

Na avaliação dos autores, o trabalho acende um forte alerta para a atenção que deve ser dada ao glaucoma congênito, já que se trata de uma patologia de alto potencial de perda visual irreversível. É fundamental, afirma Freitas, que todos os profissionais de saúde estejam atentos à possibilidade da ocorrência de mais essa manifestação da infecção congênita pelo Zika vírus, com diagnóstico rápido e cirurgia o mais breve possível.

Em fevereiro deste ano, o mesmo grupo de pesquisadores – liderado pelo médico oftalmologista do Hospital Geral Roberto Santos – já havia descrito lesões oculares encontradas no fundo de olho dos pacientes infectados pelo vírus da Zika. O relato, na época, foi publicado na conceituada revista científica Jama.

Ascom do HGRS
Roberto Santos/glaucomazika

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