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Suporte psicológico do Cedeba ajuda na aceitação do diabetes

18/11/2020 16:31

Quem adoece quer ser curado. Por isso, geralmente, as pessoas não estão preparadas para conviver com mudanças impostas por uma doença crônica e pelo seu tratamento, como é o exemplo do diabetes. A análise da psicóloga do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia (Cedeba), Ana Emília Ramos, reforça a importância do atendimento psicológico que integra a assistência multidisciplinar do Centro de Referência.

No Cedeba, na primeira consulta da pessoa com diabetes com o psicólogo, são frequentes as queixas: “não consigo controlar a minha glicemia”; “não consigo seguir a dieta”; “não adianta cuidar da minha diabetes, porque vou morrer mesmo”. Estas frases traduzem, segundo Ana Emília Lisboa, a sensação de sobrecarga, estresse, fracasso, culpa e negação”. É importante que a pessoa com diabetes compreenda que pode ela pode ter recaídas, isto é, repetir antigos hábitos de vida. Assim – destacou – deve ser enfatizada a importância de compreender o que fragilizou o autocuidado e que se pode recomeçar sempre.

Na assistência do Cedeba, a equipe de Psicologia compõe diferentes equipes multiprofissionais dos ambulatórios de Diabetes. Os usuários são encaminhados para o Serviço de Psicologia, através dos diversos membros da equipe multiprofissional.

As principais queixas dos pacientes são: dificuldade de aceitação do diabetes ,na aplicação da contagem de carboidratos e de seguir orientações do plano alimentar, irregularidade no uso das medicações e nas medições diárias da glicose, frequentes internações decorrentes do descontrole da glicemia, sintomas de saúde mental (ansiedade, humor deprimido, insônia, sintomas fóbicos, uso abusivo de álcool), medo das complicações associado ao Diabetes (perda visual decorrente da retinopatia diabética, hemodiálise associada à nefropatia diabética, dor crônica associado à neuropatia diabética, amputações) e, com muita frequência, ocorrem os casos de violência doméstica. Todas as demandas interferem de forma negativa no manejo dos cuidados diários desse problema de saúde.

Segundo explicou a psicóloga, os seres humanos, vivenciam em muitos momentos, ambivalência de pensamentos e sentimentos. As pessoas com diabetes têm mais um aspecto, o seu quadro patológico, para ser incluído no turbilhão de pensamentos e sentimentos diários. A sobrecarga da rotina de cuidados com o diabetes pode despertar pensamentos e sentimentos ambivalentes, oscilando entre aceitação e negação da mesma. A ambivalência dos sentimentos e de cognições pode gerar instabilidade emocional para os portadores de Diabetes e para os seus familiares.

O diagnóstico de DM ,-pontuou Ana Emília – em qualquer fase da vida, carrega consigo imposições na mudança do estilo de vida: alterações da rotina alimentar, uso diário de medicamentos, maior frequência em consultas médicas, trazendo sobrecarga para o paciente e para os seus familiares. Estas alterações na rotina diária afetam a qualidade de vida do indivíduo, devido aos cuidados diários que a pessoa com diabetes precisa realizar. Diante desse desafio, pacientes em qualquer fase do desenvolvimento podem atuar negando o Diabetes.

Quando o diagnóstico de Diabetes ocorre na infância, é frequente que os pais se responsabilizem pelos cuidados diários e sintam mais a sensação da sobrecarga e medo, por conta disso, os pais devem ser acompanhados pela equipe multiprofissional, nos trabalhos de educação em grupo ou mesmo no acompanhamento psicológico. Na adolescência, fase marcada pelos conflitos entre pais e filhos, a diabetes pode funcionar com mais um ponto de tensão nessa relação. A fonte principal de preocupação na vida adulta associado ao diabetes são os medos das complicações clínicas e da perda da capacidade produtiva/laboral.

DIABETES EMOCIONAL?

É muito comum, escutar pessoas com Diabetes e Hipertensão, relacionarem esses dois agravos como emocionais. Esta afirmativa em parte é verdadeira, destaca a psicóloga – porque o estresse e ansiedade contribuem para a elevação dos níveis de glicemia e da pressão arterial. Quando a pessoa vivencia situações de estresse e ansiedade são liberados diversos hormônios, como cortisol e adrenalina, levando ao aumento do uso de glicose pelas células. Entretanto, o nível de insulina não aumenta. Então, a glicose não consegue entrar nas células, elevando a glicemia no sangue. Além disso, o cortisol e adrenalina, diminuem a capacidade de dilatação dos vasos e a permeabilidade vascular, aumentando o volume de sangue circulante no vaso, elevando a pressão arterial.

Interessante que ninguém permanece integralmente estressado e ansioso, mas se a glicemia e a pressão arterial se mantêm constantemente elevadas, uma hipótese seria que as estratégias de manejo do autocuidado podem estar fragilizadas. Essa forma de se referir ao diabetes ou hipertensão como emocional, é uma forma de manifestação do comportamento da negação e de evitar a rotina de cuidados com os respectivos problemas de saúde. Essa conduta muito frequente nas pessoas com diabetes e hipertensão pode elevar os riscos de complicações e agravos à saúde.

As pessoas com diabetes vivenciam uma experiência de esgotamento e sobrecarga com a rotina diária de cuidado que esse quadro somático necessita. Essas estratégias disfuncionais podem trazer desânimo e desmotivação com a manutenção das práticas de autocuidado que quando somadas a pensamento catastróficos relacionados ao Diabetes, elevam o risco de complicações na evolução de curto, médio e longo prazo dessa doença.

Quando o quadro somático é associado a sintomas depressivos, ansiedade e a situações de estresse agudo, pode ocorrer como consequência, piorar no prognóstico. É fundamental que as pessoas com diabetes que apresentem problemas emocionais, passem por acompanhamento psicológico, visando melhorar o autocuidado, aliviar ou minimizar sintomas da saúde mental, melhorar a adesão ao tratamento medicamentoso, a orientação alimentar, praticar exercício físico, beneficiando a qualidade de vida do mesmo. A intervenção psicológica tem também como finalidade criar, juntamente com o paciente, novas estratégias para realizar mudanças no comportamento, propiciando, assim, controle glicêmico e bem-estar psicológico.

A assistência à pessoa com diabetes é complexa, porque implica que a mesma adote práticas de autocuidado, mudanças nas escolhas diárias e no estilo de vida. Para lidar com esta complexidade é preciso trabalhar com a equipe multiprofissional, mobilizar apoio de familiares e da rede social do sujeito. Através da assistência multiprofissional, é possível incluir o olhar biopsicossocial na assistência aos usuários do Cedeba, facilitando que os mesmos possam se engajar no processo de mudança de estilo de vida, sem perder de vista, a importância de compreender as particularidades do contexto de vida dos nossos usuário.

Ascom do Cedeba

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