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Obesidade: a doença crônica que mais cresceu desde o início da Vigitel em 2006

05/03/2021 11:05

O crescimento da obesidade no Brasil tem níveis muitos altos, desde os anos 80 e 90, alcançando hoje 20% da população adulta. O percentual de pessoas com sobrepeso é quase três vezes maior, variando entre 55% e 60%. Para o endocrinologista e preceptor da Residência Médica do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia (Cedeba), Fabio Trujilho, o tratamento da obesidade é muito importante por ela estar associada a outras doenças como hipertensão arterial e diabetes, esteatose hepática (gordura no fígado, que pode levar à cirrose), apneia do sono (que reduz o rendimento durante o dia por causa do cansaço causado pela má qualidade do sono), além de vários tipos de câncer e osteoartroses.

De acordo com o resultado da pesquisa Vigitel 2019 (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), levantamento que revela o perfil da população brasileira em relação às doenças crônicas mais comuns, o maior aumento, desde 2006, é da obesidade. Saltou de 11,8% para 20,3% em 2019. O excesso de peso atinge 55,4% dos brasileiros, percentual que varia de acordo com a faixa etária: 30,4% para os jovens de 18 a 24 anos e 59,8% entre adultos com mais de 65 anos. A escolaridade é um fator que contribui para diminuição da incidência do excesso de peso: 61% para pessoas com até oito anos de estudo e 52,2% para aqueles com 12 ou mais anos de estudo.

Sobrepeso e obesidade

Para avaliar o sobrepeso e obesidade, o padrão utilizado internacionalmente e que serve de base para estudos e pesquisas é o IMC (índice de Massa Corpórea). É calculado dividindo o peso (em Kg) pelo quadrado da altura (em metros). Dessa forma, são calculados parâmetros: de 18,5 a 24,9, peso normal; de 25 a 29,9, sobrepeso; de 30 a 34,9, obesidade grau 1; de 35 a 39,9, obesidade grau 2; e, a partir de 40, obesidade grau 3 (que antes era chamada de obesidade mórbida).

Mas, além de perder peso, é importante controlar a gordura visceral, que representa risco para diabetes. É uma avaliação simples. Para os homens, 102 centímetros de circunferência abdominal é o padrão desejado. E, para as mulheres, 88 centímetros.

Segundo Fábio Trujilho, vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (Abeso), mesmo sendo usado em todo o mundo, o IMC não é 100% exato, por não levar em consideração diferenças raciais, bem como diferentes estruturas do corpo. Quem tem mais músculo, pesa mais, influenciando no resultado do IMC.

O padrão mais moderno é o exame de bioimpedância magnética, avanço que o Cedeba já dispõe e que é muito importante tanto para a avaliação das pessoas com obesidade como nos casos de diabetes. Com a bioimpedância é calculada a massa livre de gordura ou massa magra – inclui músculos, ossos, pele e massa gorda (total menos massa magra) – e ainda a taxa de metabolismo basal.

Conhecer a composição corporal é muito importante no tratamento da obesidade. “Muitas vezes, o paciente se queixa que seguiu o plano alimentar, mas seu peso não diminui muito. Isso acontece, geralmente, quando há perda de gordura e aumento da massa magra (o músculo pesa mais que a gordura). Mesmo sem mudança significativa do peso, as medidas diminuem e com isso, as roupas começam a ficar mais folgadas”, como explica a nutricionista do Cedeba, Lorenna Fracalossi.

No caso dos pacientes submetidos à cirurgia bariátrica, esse controle é muito importante. Logo após a redução do estômago, a perda de peso é muito acelerada, havendo a necessidade de verificar a perda da massa magra, que, se for muito alta, exige o uso de suplementos específicos. Como os pacientes que são acompanhados no Cedeba e encaminhados para bariátrica fazem controle no Centro de Referência durante cinco anos pós-cirurgia, o aparelho de bioimpedância garante o registro histórico das medições no sistema, sendo muito importante para avaliar a evolução do paciente.

A Taxa Metabólica Basal (TMB), também avaliada pela bioimpedância magnética, é o mínimo de energia necessária para manter as funções do organismo em repouso, como os batimentos cardíacos, a pressão arterial, a respiração e a manutenção da temperatura corporal. “Sem o aparelho, é preciso fazer cálculos com o uso de fórmula. Agora, com muita rapidez e segurança, esse número ė obtido utilizando a bioimpedância”, observa Lorenna Fracalossi.

Multifatorial

A obesidade , como explica Fábio Trujilho, é uma doença multifatorial. É muito importante ficar atento à questão genética, aos fatores ambientais, porque hábitos alimentares que contribuem para a obesidade tendem a ser repetidos pelos filhos. A criança que nasce acima do peso já precisa de atenção especial. Pode ser que o excesso de peso tenha sido causado pelo fato de a mãe ter apresentado diabetes gestacional, mas é preciso acompanhar seu desenvolvimento com cuidado especial.

Ainda segundo o endocrinologista, tratar a obesidade possibilita a remissão de casos de diabetes tipo 2. Isso acontece tanto com o tratamento ambulatorial, como na cirurgia bariátrica. E o tratamento da obesidade tem evoluído muito. Além das cirurgias, há muitos medicamentos modernos.

Diminuição de riscos

A obesidade ganhou mais destaque há um ano, com a pandemia da COVID-19, por representar maior possibilidade de complicações e morte. Segundo o endocrinologista, tratamentos baseados em evidências científicas mostram que uma perda de peso entre 5 a 10%, diminui o risco de complicações da COVID para pessoas com obesidade.

Por ser um tratamento complexo, o endocrinologista observa que “perder peso não é difícil, Difícil é manter. Por isso – observou – é preciso fugir das dietas milagrosas que prometem emagrecimento rápido”. “É muito importante que a sociedade mude seu olhar para o paciente com obesidade para evitar o fomento do sentimento de culpa”, defende Trujilho.

Obesidade é doença e precisa de tratamento multidisciplinar, como oferece o Cedeba. É necessário tratamento individualizado e humanizado, foco da campanha da Abeso para o Dia Mundial da Obesidade – 4 de março.

Ascom do Cedeba

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