ARTIGO: O Sistema Único de Saúde (SUS) que queremos

Artigo publicado no Jornal A Tarde, no dia 5 de novembro de 2018.

 

O Sistema Único de Saúde (SUS) que queremos

A saúde apareceu, durante a última campanha eleitoral, como o maior problema à espera dos governantes. Mas esse não é um fenômeno apenas brasileiro.

Todos os países buscam um sistema de saúde que atenda os anseios e necessidades da sua população. Um sistema universal, com cobertura abrangente e gratuito é o modelo que todos perseguem, e, no Brasil, esse sistema foi idealizado há 30 anos e está escrito na Constituição. Ao longo de três décadas, o sistema ainda está a evoluir e adaptar-se, mas o país que vivemos sofreu modificações mais intensas e marcantes que o sistema talvez possa absorver. Na natureza, nem sempre os mais fortes sobrevivem, mas aqueles mais aptos a adaptar-se conseguirão evoluir.

Nosso sistema de saúde enfrenta muitas limitações, seja na quantidade, seja na qualidade dos serviços ofertados. Ainda não conseguimos chegar ao sistema ideal, e as mudanças que estamos a passar ameaçam sua sobrevivência. Ao longo das últimas décadas, vivenciamos uma revolução demográfica puxada pela urbanização acelerada no país. Passamos por uma revolução epidemiológica, do ponto de vista do envelhecimento da população, e já não morremos de doenças infectocontagiosas, mas de doenças crônico-degenerativas, que são muito mais complexas de ser cuidadas. Nos últimos anos, tivemos também uma revolução tecnológica, com o aparecimento de diversos métodos de diagnóstico e tratamento, resultando num elevado crescimento do custo de acesso à saúde.

Paralelamente, continuamos a ter crises periódicas na economia, como a que passamos nesse momento. Não existe solução para um país que tenha as condições demográficas que o Brasil tem, fora de um sistema público e universal de saúde. Não temos como pensar em civilização, em um Brasil melhor, sem um sistema que tenha as características que o SUS tem. Não adianta pensar em alguma solução pobre, para pobres, e um sistema rico para ricos, como alguns chegam a defender.

Evidente que, para todo problema complexo existe uma resposta clara, simples e errada. É um absurdo vermos prosperar propostas de acabar com a universalidade do SUS como forma de encaixar o sistema no orçamento, quando é exatamente o oposto que devemos buscar: encaixar o orçamento no sistema. É certo que, em algum momento, teremos de definir qual é o sentido de universalidade. É tudo para todos? Grátis? Nenhum país oferece isso.

O mais importante a se buscar e esperar é o compromisso que todo governante deve firmar. O compromisso com a saúde. O compromisso de buscar soluções para os problemas que se apresentam a todo momento. E de construir, a cada dia, um sistema mais justo, eficiente e inclusivo.

 

Fábio Vilas-Boas

Cardiologista e secretário estadual da Saúde da Bahia