Uma das principais causas de cirrose e câncer de fígado é a esteaotose (gordura no fígado). Também aumenta o risco de doença cardiovascular: infarto agudo do miocárdio e acidente vascular cerebral e de outros tipos de câncer, tais como mama e intestino grosso. O problema atinge 1/3 da população brasileira, estando no grupo de risco as pessoas com sobrepeso, obesidade e diabetes.
As informações são do hepatologista Paulo Lisboa Bittencourt, coordenador de Unidade de Gastroenterologia, Hepatologia e de Transplante Hepático dos Hospitais Português da Bahia. No próximo dia 28 de abril, às 15 horas, ele fará webpalestra sobre “Doença hepática gordurosa metabólica: uma proposta de linha de cuidado para o SUS”, inciativa do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia, por meio da Coordenação de Educação em Diabetes e Apoio à Rede (Codar), dentro do programação de educação continuada para os profissionais da Atenção Primária de Saúde.
MUDANÇA DE ESTILO DE VIDA
Segundo explicou o especialista, a esteatose é causada pela síndrome de resistência insulínica associada a sobrepeso, obesidade, sedentarismo e má alimentação (como ingestão excessiva de produtos hipercalóricos, ultraprocessados e ricos em frutose adicionada) e ao diabetes mellitus do tipo 2 (DMT2).
Muitas pessoas entendem que retirando a gordura da alimentação estão protegendo o fígado da esteatose. “Não é tão simples assim. Alimentos ultraprocessados, ricos em gorduras e hipercalóricos contribuem para o sobrepeso e obesidade, fatores de risco importantes.”
E a redução do peso, em pequenos percentuais – observou o hepatologista – já traz resultados significativos. Com a perda de 5% do peso (numa pessoa de 70 quilos, equivale a uma redução de 3,5 quilos) já permite o desaparecimento da gordura, com 7%, faz desaparecer esteatohepatite e 10% é possível reverter a fibrose.
Mas não basta alimentação saudável para alcançar a redução do peso, segundo o especialista. É preciso combinar alimentação saudável com exercício físico. Como se trata de doença crônica – pontuou – a mudança tem que ser para sempre. Se a pessoa voltar a ganhar peso, a gordura no fígado voltará.
Aproximadamente a metade das pessoas com obesidade e DMT2 tem gordura no fígado. “ O dado é alarmante uma vez que segundo os dados atuais do Vigitel 2019, 55% da população brasileira acima de 18 anos tem sobrepeso e obesidade e 7,4% tem DMT2. As pessoas com DMT2 e obesidade têm risco maior de desenvolver inflamação no fígado associada ao acúmulo de gordura (esteatohepatite), que é o espectro da doença associado ao desenvolvimento de cirrose e câncer de fígado”, destacou Paulo Bittencourt.
Pesquisa encomendada pelo Instituto Brasileiro do Fígado (IBRAFIG) ao Datafolha (setembro 21) indica que 86% dos brasileiros sabem que a gordura no fígado é uma das principais causas para câncer de fígado e 73% concordam que a esteatose é risco para doenças cardiovasculares (como infarto e AVC), porém 56% dos entrevistados informam não realizarem exames para avaliação de saúde hepática.
O hepatologista disse ser muito importante fazer o rastreamento de pessoas que fazem parte do grupo de risco: ultrassonografia do abdômen superior e dosagem das enzimas hepáticas (TGO e TGP) são os exames iniciais para diagnóstico da esteatose hepática que, inicialmente, não apresenta sintomas. Só na fase mais avançada os sinais começam a surgir, como é o caso da barriga dágua.
Ex presidente do instituto Brasileiro do Fígado e da Sociedade Brasileira de Hepatologia, Paulo Lisboa Bittencourt insiste na importância das mudanças do estilo de vida para o tratamento da gordura do fígado. Ele explicou que não existe comprovação científica sobre a eficácia de fitoterápicos e chás para o tratamento da estetatose.
E o uso excessivo de chás pela população para o tratamento da gordura no fígado – além de não ter comprovação científica de eficácia, representa um risco para o desenvolvimento de hepatite, que pode evoluir para uma quadro grave que exija transplante de fígado,.
ENTENDENDO A ESTEATOSE
O que é Esteatose Hepática Não Alcoólica – A gordura no fígado – explica o hepatologista – é um problema de saúde que acontece quando as células do fígado são infiltradas por células de gordura; quando este índice chega a 5% ou mais o quadro deve ser tratado o mais brevemente possível. Se não tratada corretamente, pode provocar, a médio e longo prazo, inflamação (esteatohepatite) capaz de evoluir para quadros mais graves de hepatite gordurosa, cirrose hepática e até câncer no fígado.
Nesses casos – destacou – o fígado não só aumenta de tamanho, como também adquire um aspecto amarelado. O transplante hepático muitas vezes, pode ser a única indicação para situações mais críticas.
A Sociedade Brasileira de Hepatologia propôs ao Ministério da Saúde em 2018 uma linha de cuidado de cirrose e câncer de fígado, que engloba as principais intervenções necessárias para o rastreamento, diagnóstico precoce e intervenções para o enfrentamento da gordura no fígado desde a atenção básica até a alta complexidade na atenção especializada. “Nosso objetivo é alertar a população e profissionais de saúde sobre o problema de saúde pública que é a gordura no fígado e capacitar os profissionais de saúde e por que não a população para seu rastreamento e diagnóstico precoce”, reforçou.
Ascom do Cedeba