O Serviço Social do Hospital Juliano Moreira (HJM) realizou no auditório da unidade, na quinta-feira (19), o II Simpósio Dialogando com a Rede – Desafios e Possibilidades de Atuação em Saúde Mental com Pessoas em Situação de Rua com o objetivo de apresentar e discutir a temática destacando as barreiras de acesso aos serviços e a importância de abordagens intersetoriais e humanizadas no acolhimento dessa população. Segundo a coordenadora de Serviço Social do HJM, Meiry Rodrigues, outro fator importante nesse diálogo é fortalecer o trabalho com a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), para evitar a institucionalização dessa população em ambiente hospitalar, o que institui a Lei 10.216/2001, da reforma psiquiátrica e os objetivos do HJM.
Não existem respostas simples para problemas complexos e enraizados historicamente. Esse foi o consenso entre os participantes do encontro, que reuniu integrantes essenciais ao funcionamento da RAPS, em Salvador, como a Secretaria Municipal de Promoção Social e Combate à Pobreza (SEMPRE), programas de abordagem social e consultório de rua, como o Girassóis de Rua – da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), a Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais – ADRA, programa Corra Pro Abraço, da Secretaria Estadual de Assistência e Desenvolvimento Social (SEADES), e diversos Centros de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas (CAPS AD), como o CAPS Gregório de Matos, para fomentar um diálogo rico em temas, como: redução de danos, agressão aos trabalhadores da assistência, vulnerabilização dos usuários nas ruas após uso de medicação psicotrópica, articulações para evitar internações, cuidado como responsabilidade multidisciplinar.
O diretor geral do HJM falou sobre o crescimento dos atendimentos no hospital, que funciona no regime de “porta aberta” para atendimento de urgências e emergências psiquiátricas. ”A rede precisa também estar preparada para receber esse paciente que teve alta, mas está em situação de rua e não tem local para acolhimento. Hoje temos 101 leitos, e mais pacientes precisando internação do que leitos disponíveis. O hospital não trabalha com o perfil de asilo. Na prática, o hospital exerce um papel importante para a sociedade e para os pacientes portadores de transtorno mental grave. Por isso, a responsabilidade da rede é grande, para reintegrar e ressocializar esse indivíduo”, destacou o médico psiquiatra Antônio Freire.
Humanização de políticas públicas – Na palestra de abertura, a Assistente Social, mestre em Política Social e Cidadania e autora do livro: População Adulta em Situação de Rua e o Acesso à Saúde, Sandra Carvalho tratou dos desafios enfrentados por esse grupo no acesso ao Sistema Único de Saúde (SUS), contextualizando com questões de exclusão social, precarização da vida, negação de direitos e necessidade de humanização das políticas públicas para uma população vulnerabilizada e formada principalmente por pretos e pardos.
“Os recortes históricos da nossa cidade mostram o gênero, a raça e a classe dessa população. É preciso entender a estrutura de sociedade que temos, para não sair culpando quem está na rua, nem o equipamento de apoio, por problemas crônicos de inclusão social precária. O nosso sonho é de que as políticas públicas sejam consolidadas e plenamente executadas pelo Estado, no âmbito da educação, saúde, emprego e renda, dignidade humana, não esquecendo de todo o trabalho realizado pelos projetos sociais”, pontuou Carvalho.
Ciclo de exclusão social – Sobreviver na rua é lidar com situações de extrema vulnerabilidade e invisibilidade social, caracterizadas pela ausência de moradia convencional, ruptura de vínculos familiares e extrema pobreza. Um verdadeiro círculo vicioso, pois esse cotidiano gera transtornos mentais, e o agravo do transtorno mental mantém o indivíduo na rua, criando um ciclo de exclusão social de difícil superação. Estudos apontam que entre 60% e 80% das pessoas em situação de rua enfrentam transtornos mentais, resultando em um grande desafio de saúde pública.
O Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania (MDHC) ressalta que a maioria das pessoas em situação de vulnerabilidade passou a ocupar as ruas devido a laços familiares interrompidos (44%) e desemprego (38%), agravados pela dependência química, fruto do vício em bebida alcoólica e outras substâncias psicoativas (28%). Levantamento do ministério, de 2023, contabiliza 7.852 pessoas em situação de rua, em Salvador. Dados do CadÚnico já mostram 9.624 pessoas vivendo assim na capital baiana, dos quais 84% são homens e 16% mulheres. Na Bahia são 16.176 pessoas, sendo 14.983 pretos e pardos, e no Brasil, 337.803 indivíduos.
O simpósio contou com a licença poética que só a arte pode proporcionar: a música com a voz e violão de Nivaldo Santos, coordenador da Segurança e a contação de histórias com a Assistente Social, Ana Vitória. Estiveram presentes ao evento a Diretora Médica, Dr ª. Maria Aparecida Pereira, o Diretor Técnico, Dr. Pedro Gama e o Diretor Administrativo, Eron Ponchet, funcionários do hospital e trabalhadores da RAPS.
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