A doméstica Rita de Cassia Ribeiro Queiroz, 52 anos, moradora do Cabula, está contando os dias para o Carnaval, porque “ganhei da minha patroa a fantasia do Ilê (o tradicional bloco afro Ilê Aiyê). Vou realizar meu grande sonho.” Com diabetes desde os 20 anos, e acompanhada no Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia ( Cedeba), ela participou hoje da Caravana da Saúde, na sala de espera, recebendo reforço de informações sobre os cuidados que precisa observar durante a folia, para brincar com segurança.
O planejamento da Caravana da Saúde, programa educativo do Cedeba, por meio da Coordenação de Educação em Diabetes e Apoio à Rede (Codar) nas salas de espera, é uma atividade de rotina, mas leva em conta datas especiais, quando há necessidade de orientações específicas. E no Carnaval não é diferente, porque “a pessoa com diabetes pode ter uma vida normal, sem restrições, mas para isso é preciso adotar cuidados diários”, como observa a coordenador da Codar, Graça Velanes”.
Segundo explica a coordenadora da Codar, o tratamento do diabetes é dinâmico. Envolve muitas vezes escolhas da pessoa com diabetes, requer construir e interpretar os resultados das glicemias diante das glicoses monitoradas ao longo do dia, bem como alimentação adequada e exercícios, manejo da insulina nas situações de alta e baixa da glicose, dentre outras ações. Algumas medicações, como a insulina e a classe das sulfonilureias, podem causar hipoglicemia e o paciente precisa saber reconhecer esses sintomas e como conduzir a situação.
Se uma pessoa com diabetes “cair” na folia apresentar sinais e sintomas de hipoglicemia? O que dispõe para se recuperar transitoriamente desta crise… lembrando que em todo circuito há diversos alimentos (refrigerantes e sucos com açúcar, sanduíches, churrasquinho) qual a escolha? Será que ele ou acompanhante terá tempo de comprar o alimento assertivo para corrigir a hipoglicemia? Então é necessário o KIT Hipo (balas macias com açúcar, sachê de mel) e o cartão do diabetes. A responsabilidade de proporcionar uma boa qualidade de vida depende do suporte da equipe de saúde que o acompanha sustentando nos sete comportamentos para o autocuidado pois uma pessoa com diabetes educada consegue adquirir autonomia trilhando nas adversidades do dia a dia, orienta Graça Velanes.
AULA PRÁTICA
Na aula prática da Caravana da Saúde, a líder de Educação do Cedeba, enfermeira, Ana Claudia Perrotta, e a nutricionista Suane Evangelista, explicaram os cuidados para evitar hipoglicemia (definida como glicemia menor que 70). Com farto material didático, além da apresentação dos conceitos, responderam muitas perguntas, esclarecendo dúvidas.
A pessoa com diabetes, segundo explicou Suane Evangelista, para “cair na folia “precisa se cuidar para evitar a hipoglicemia, que nos casos mais graves, quando a pessoa perde a consciência exige atendimento médico, como explicou Ana Claudia Perrota.
Além de fazer as refeições, de acordo com o plano alimentar, a pessoa com diabetes, ao brincar o Carnaval, não deve esquecer a hidratação ( beber água) e o kit para hipoglicemia (três balas macias, três sachês de mel), cada um correspondendo a 15 gramas de carboidratos. A hipoglicemia pode ser revertida também com um copo de suco de laranja ou um copo de refrigerante (com açúcar, normal) caso a glicemia esteja menor que 54, dobrar o consumo para 30 gramas de carboidratos.
São sintomas da hipoglicemia: tremores, sonolência, aumento da sudorese e confusão mental. Quando a pessoa fica desacordada por conta da hipoglicemia, não se deve dar qualquer alimento, explica Ana Perrota, porque há o risco de a pessoa broncoaspirar. Neste caso, como orientam as profissionais da Caravana da Saúde, a pessoa precisará de aplicação de glicose (via endovenosa.). Deve-se procurar atendimento nos postos do circuito do Carnaval ou ligar para o SAMU (192).
Para quem vai sair em blocos, como é o caso de Rita de Cássia, a orientação de Suane Evangelista, ao chegar para o desfile, já informar ao pessoal do carro de apoio que tem diabetes. Isso garante uma atenção especial.
COMPORTAMENTOS PARA O AUTOCUIDADO
O folião precisa estar atento para comportamentos que reforçam o autocuidado, como observa a coordenadora da Codar: comer saudavelmente, buscando uma alimentação mais natural possível e a redução de alimentos processados e ultraprocessados. Alimentos processados têm maior teor de gordura, podendo tornar mais lenta a ação das insulinas utilizadas para cobrir os carboidratos das refeições, levando às hiperglicemias. Muitas vezes, a pessoa com diabetes na folia poderá no dia recolher-se, caso ocorra esta situação e não identificar a causa.
O carnaval é um bom momento para movimentar o corpo e melhorar a absorção das medicações (hipoglicemiantes orais e insulina). Mas exercício e calor requerem maior ingestão de água – no mínimo 2 a 3 litros por dia. Os sucos de frutas contêm adição de açúcares, podendo elevar a glicemia.
Para brincar o Carnaval com segurança é preciso vigiar as taxas. E segundo a coordenadora de Apoio à Rede da Codar, advogada e assistente social, Júlia Coutinho, a Lei nº 11.347, de 27 de setembro de 2006, dispõe sobre a distribuição gratuita de medicamentos e materiais necessários à aplicação e à monitoração da glicemia capilar às pessoas com diabetes inscritas em programas de educação. Portanto – pontuou -, não é desculpa para não ir à folia, pois o direito da pessoa com diabetes monitorar suas glicemias está garantido por Lei. O gerenciamento da utilização de glicemias em locais públicos pelo procedimento (uso de lancetas, fitas ) e seus descartes deve ser discutido com sua equipe de saúde a fim de evitar situações constrangedoras em público.
CARTAZ EDUCATIVO
As pessoas com diabetes acompanhadas no Cedeba contam, também, com dicas para curtir o Carnaval com segurança, que estão num cartaz afixado próximo ao Posto de Enfermagem. O uso de calçados adequados (meia de algodão) e a orientação para não andar descalço. A opção por roupas leves como as de algodão, o uso da camisinha, os cuidados com a alimentação e hipoglicemia. A equipe da Codar continuará até o Carnaval com a Caravana da Saúde, focando os cuidados para a festa, para garantir o direito à folia com segurança.
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