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Racismo, envelhecimento e resistência: Creasi debate velhices invisibilizadas

02/12/2025 14:40

A Bahia tem a maior proporção de população negra (pretos e pardos) do Brasil, possuindo mais de 1,5 milhões de pessoas idosas negras, segundo dados da Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), sobre o Censo Demográfico de 2022. Os dados reafirmam a identidade negra como parte essencial da cultura e história da Bahia, mas contrastam com os desafios enfrentados por essa população no mercado de trabalho, na educação, no acesso à saúde e a condições dignas de vida.

Através desse levantamento é possível entender as dificuldades que precisam ser superadas para promover atendimento humanizado e cuidado integral, biopsicossocial — considerando fatores biológicos, psicológicos e sociais, para compreender a saúde e a doença de uma pessoa, visto que o envelhecimento saudável não é uma realidade possível para todos. O Centro de Referência Estadual de Atenção à Saúde do Idoso (Creasi) atende essas pessoas idosas, frágeis e em risco de fragilização.

O perfil de pacientes do Centro é maioria negra (79,7%) e também de mulheres (74,4%). Na semana passada, a unidade realizou Sessão Científica sobre “Velhices Invisibilizadas: Racismo, Envelhecimento e Resistência”, com Juliana Brito, psicóloga, especialista em Saúde da Pessoa Idosa e docente da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), com o objetivo de ampliar o debate sobre o tema.

A proposta da atividade comunga com o conjunto de valores do Creasi, que prioriza o acolhimento, o respeito, a empatia, e incita uma formação crítica antirracista, reconhecendo as fragilidades e necessidades específicas dessa população negra idosa, que não se limita à doença e engloba o contexto social e emocional, alinhada à Política Nacional de Saúde do Idoso (PNSI), à Política Nacional de Humanização (PNH – HumanizaSUS) e aos princípios do SUS de Universalidade, Equidade e Integralidade.

O encontro discutiu conceito de envelhecimento tendo como referência as condições sociais e biológicas, determinando a trajetória do indivíduo ao longo da vida; o conceito de velhice enquanto uma categoria socialmente construída, sendo um fenômeno biológico e social que marca um espaço de tempo, destacando as camadas que compõem as diversas “velhices”, como: classe social, gênero, raça e até os diferentes grupos de idade entre as pessoas idosas.

Para ilustrar, foi apresentado parte do documentário “Alzheimer na Periferia”, que retrata a trajetória de cinco famílias, que convivem diariamente com a doença de Alzheimer e como a desigualdade brasileira afeta a vida dessas pessoas e de seus cuidadores.

“Maria, Maria, é o som, é a cor, é o suor; é a dose mais forte e lenta, de uma gente que ri quando deve chorar e não vive, apenas aguenta”. Com trecho da canção de Milton Nascimento, a professora Juliana Brito apresentou o caso de uma paciente, denominada ficticiamente de Maria. O caso retratou inúmeras mulheres negras e idosas no Brasil, que chegam à velhice, invisibilizadas, em situação de vulnerabilidade socioeconômica, com uma rede de apoio fragilizada ou inexistente, além de fazerem o papel de cuidadoras ao invés de estarem sendo cuidadas. Durante a atividade, ela propôs a reflexão sobre o que o Creasi pode fazer para agregar saúde, em seu amplo significado, à vida dessas “Marias”.

O caso em questão é de uma paciente de 85 anos, viúva, analfabeta e aposentada, que possui 11 filhos, sendo dois deles alcoolistas. Ela criou 5 netos e atualmente cuida de 3 bisnetos, realiza trabalhos domésticos como lavar, passar, limpar e cozinhar, mora na periferia, tem acesso precário aos serviços de saúde e não possui hábitos de vida saudáveis. Ao analisar o caso, ficou em destaque a importância do cuidado em rede, com a articulação de diferentes serviços que podem possibilitar mais qualidade de vida e garantir efetividade no plano terapêutico.

Juliana Brito também abordou os impactos do neoliberalismo e da necropolítica, explicando que esse exercício do poder não incide somente sobre a vida, mas também sobre medidas que produzem morte, indicando inclusive quem deve morrer. No Brasil, essa articulação se manifesta no subfinanciamento das políticas econômicas e sociais, que acabam promovendo a exclusão e a vulnerabilidade e gerando ativamente a morte de populações, especialmente as negras, pobres e periféricas, através do aumento da violência, do racismo estrutural e da negligência.

A psicóloga ainda descreveu um fenômeno chamado “Imunologia Social” e como é permeado de preconceitos. “A gente tem doenças que não são muito estudadas, porque são doenças que atingem uma determinada população, com uma determinada cor e lugar. Isso é imunologia social. Quando essas doenças passam a atingir outras camadas da população… Opa! Agora a gente vai estudar”, salientou.

 

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