Saúde da População Negra

A Bahia conta com 79,02% da sua população composta por negros/as e pardos/as, sendo esta, em sua maioria usuária exclusiva do Sistema Único de Saúde – SUS , que enfrenta importantes dificuldades no acesso, acolhimento e atendimento em saúde. (Bahia,p.56, 2016). Neste sentido, figuram como principais problemas de saúde enfrentados pela população negra: a inadequação e/ou ineficiência dos tratamentos para os principais agravos da população negra; a subnotificação da variável cor (quesito cor) na maioria dos sistemas de informação da saúde; ausência desta temática nas ementas dos cursos da área de saúde de nível médio e graduação; a baixa adesão dos gestores municipais à Política Estadual de Atenção à de Saúde da População Negra(Bahia, p. 62 , 2016).

Quanto às doenças prevalentes, existem 4(quatro) que estão associadas a causas genéticas: Anemia Falciforme; Hipertensão arterial; Diabetes mellitus; Deficiência de glicose-6fosfato desidrogenase. Porém existem outras questões de saúde que acometem a população negra em função de condições socioeconômicas, ambientais as quais lhe são impostas. A desnutrição, as altas taxas de mortalidade infantil, a Anemia Ferropriva, doenças do trabalho, os transtornos mentais são exemplos de condições adquiridas em função de condições socioeconômicas e educacionais desfavoráveis e intensa pressão social. Já a insuficiência renal crônica, os Cânceres; os Miomas, e até a Hipertensão arterial e a Diabetes mellitus, são doenças cuja evolução é agravadas ou o tratamento é dificultado pelas condições ambientais(Bahia,p.56, 2016).

Sobre a quantificação das questões de saúde na população negra baiana, pode-se destacar, pela gravidade, que as doenças cerebrovasculares prevaleceram como a principal causa de morte entre a população negra em 2012, e a taxa de mortalidade por suicídio, segundo raça/cor, na Bahia em 2019, é de 89,91 para a população negra contra 8,55 para a população branca.(SESAB/SUVISA/DIVEP/Sistema de Informação sobre Mortalidade – SIM).

Na direção de evidenciar a variedade de doenças e agravos que atingem negros e negras no Estado, é importante citar que: em 2013, a maior taxa de detecção de aids foi registrada em homens de raça/cor preta – 18,8/100 mil habitantes (Brasil, 2017); entre 2004 e 2013, a taxa de incidência da tuberculose e da hanseníase foi maior nas populações indígenas e negra (Brasil, 2017); a proporção de pessoas de 18 anos ou mais de idade que se envolveram em acidentes de trabalho, foi predominantemente de homens negros(Brasil, 2017); quanto à proporção de óbitos por Doença de Chagas segundo raça/cor, observou-se entre 2008 a 2017 elevada ocorrência (76,9%) em pessoas negras (Bahia, jan/mar 2020).

Na mesma linha, do total de 103.466 casos notificados de violência, no período de 2009 a 2019, 57.426 (55%) foram relacionados a pessoas negras e 6.637 (6%) a pessoas brancas(Bahia, Boletim Epidemologico, 2020). Sobre doenças prevalente na população negra associadas a causa genética,em diagnóstico elaborado pela Fundação Bahiana de Hematologia da Bahia (HEMOBA), para subsidiar o Programa Estadual de Atenção Integral às Pessoas com Doença Falciforme, analisando 15 estados brasileiros, a Bahia foi o estado que apresentou a maior prevalência do gene da doença – 5,48%( Bahia,p.59, 2016).

Diante da definição da Constituição Federal (1988) de que as políticas sociais e econômicas devem promover, fundamentalmente, o acesso universal e igualitário às ações e serviços em saúde, além do cuidado e assistência integrais e equânimes para toda a população, e face ao princípio da equidade previsto no Sistema Único de Saúde – SUS, as Políticas de Promoção de Equidade em Saúde surgem para promover o respeito à diversidade e garantir o atendimento integral a populações em situação de vulnerabilidade social, historicamente excluídas ou estigmatizadas, reduzindo as iniquidades deste segmento populacional.

Dentre tais Políticas, temos a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (Portaria do Ministério da Saúde nº 992, de 13/05/2009) a qual define princípios, objetivos, diretrizes, estratégias e as responsabilidades da gestão (estadual e municipal) para a melhoria das condições de vida e saúde desse segmento populacional. Prevê ações de cuidado, atenção, promoção à saúde e prevenção de doenças, contemplando a gestão participativa, com participação popular e controle social, além da produção de conhecimento, da formação e educação permanente para trabalhadores de saúde. Ainda reconhece a existência de desigualdades étnico-raciais e o racismo como determinante social de saúde, priorizando o combate ao racismo como uma direção política importante e necessária.

No tocante aos determinantes sociais, conforme a Organização Mundial de Saúde (OMS) e as definições do art. 3º da Lei Federal n° 8080 de 19/09/1990, vale dizer que estes se referem às condições em que uma pessoa vive e trabalha, portanto reconhece-se que os fatores sociais, econômicos, culturais, étnicos/raciais, psicológicos e comportamentais influenciam a ocorrência de problemas de saúde e fatores de risco à população. Nesta direção, a população negra brasileira possui condições de vida significativamente precárias, a exemplo: 67,7% dos desocupados/desempregados são negros e negras (Pnad contínua, 2017, IGGE); em média, os brasileiros brancos ganhavam, em 2015, o dobro do que os negros: R$1589,00 reais ante R$898,00 reais, mensal (IPEA, PNAD); dos mais de 33 milhões de brasileiros que passam fome, 70% são negros(Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional – Levantamento 2021/2022); a Taxa de analfabetismo entre negras/os é o dobro dos brancos/as, de 9,1 para negros e de 3,9 para brancos(IBGE/ Síntese de indicadores sociais: uma análise das condições de vida da população brasileira, 2018); Mulheres negras representam 58,68% das vítimas de violência doméstica (Central de Atendimento à Mulher, 2015); 75% das pessoas assassinadas são negras (Atlas da Violência 2020).

Tais dados permitem compreender o deslocamento da dimensão individual do racismo para a dimensão estrutural, na medida em que as formas organizativas, políticas, práticas e normas resultam em tratamentos e resultados desiguais, dada as desvantagens e exclusões históricas vivenciadas pela população negra. O racismo é processo social que decorre da estrutura social, funciona como parte da ordem social, do modo normal como as relações sociais se estabelecem, e se expressa pelas desigualdades, sendo portanto um processo político, desenvolvido a partir de poder político, que influencia a organização da sociedade (ALMEIDA, 2018), gerando um certo nível de naturalização dos padrões de visões, de preconceitos, de discriminações, de estigmas, e de condutas racistas intencionais ou não.

Face às pactuações da III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata/2001/Durban – Africa do Sul, das quais o Brasil é signatário, a Bahia, instituiu o Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI), com vistas a adoção de práticas antirracistas e não-discriminatórias, sendo a Política Estadual de Atenção Integral da Saúde da População Negra (Decreto 14.720 de 29/08/2013) um instrumento de materialização do Programa no campo da saúde.

Para implantação, implementação, monitoramento e avaliação da mencionada Política Estadual, a Secretaria de Saúde do Estado estruturou a Área Técnica de Saúde da População Negra, com o objetivo de ampliar do acesso da população negra, incluído comunidades quilombolas, às ações e serviços de promoção, prevenção, assistência e recuperação da saúde.

 

Política Nacional de Saúde Integral da População Negra

Diante da definição da Constituição Federal (1988) de que as políticas sociais e econômicas devem promover, fundamentalmente, o acesso universal e igualitário às ações e serviços em saúde, além do cuidado e assistência integrais e equânimes para toda a população, e face ao princípio da equidade previsto no Sistema Único de Saúde – SUS, as Políticas de Promoção de Equidade em Saúde surgem para promover o respeito à diversidade e garantir o atendimento integral a populações em situação de vulnerabilidade social, historicamente excluídas ou estigmatizadas, reduzindo as iniquidades deste segmento populacional.

Dentre tais Políticas, temos a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (Portaria do Ministério da Saúde nº 992, de 13/05/2009) a qual define princípios, objetivos, diretrizes, estratégias e as responsabilidades da gestão (estadual e municipal) para a melhoria das condições de vida e saúde desse segmento populacional. Prevê ações de cuidado, atenção, promoção à saúde e prevenção de doenças, contemplando a gestão participativa, com participação popular e controle social, além da produção de conhecimento, da formação e educação permanente para trabalhadores de saúde. Ainda reconhece a existência de desigualdades étnico-raciais e o racismo como determinante social de saúde, priorizando o combate ao racismo como uma direção política importante e necessária.

Face às pactuações da III Conferência Mundial de Combate ao Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Correlata/2001/Durban – África do Sul, das quais o Brasil é signatário, a Bahia, instituiu o Programa de Combate ao Racismo Institucional (PCRI), com vistas a adoção de práticas antirracistas e não-discriminatórias, sendo a Política Estadual de Atenção Integral da Saúde da População Negra (Decreto 14.720 de 29/08/2013) um instrumento de materialização do Programa no campo da saúde.

 

Área Técnica de Saúde da População Negra

Para implantação, implementação, monitoramento e avaliação da mencionada Política Estadual, a Secretaria de Saúde do Estado estruturou a Área Técnica de Saúde da População Negra, com o objetivo de ampliar do acesso da população negra, incluído comunidades quilombolas, às ações e serviços de promoção, prevenção, assistência e recuperação da saúde.

 

Ações Desenvolvidas:

  • Assessoramento técnico e operativo para os municípios na implantação da Política Nacional e Estadual de Saúde Integral da População Negra, incluindo a implantação nos instrumentos do SUS do quesito raça/cor com objetivo de melhor estratificar os índices epidemiológicos que envolvem a Saúde da População Negra;
  • Realiza ações de educação permanente em saúde como: oficinas, seminários, cursos e qualificações para gestores e trabalhadores do SUS, lideranças quilombolas e de movimentos sociais negros, com objetivo de organizar e sistematizar as ações multidisciplinares de saúde pública, com foco na saúde da população negra;
  • Elaboração de conteúdo técnico para material instrucional (Cartilhas, Folderes, Cartazes, Banners, Vídeos, Podecasts, e outros) sobre a temática “Saúde da População Negra”;
  • Representação da SESAB em instâncias Colegiadas e Intersetoriais como: Conselho de Desenvolvimento da Comunidade Negra – CDCN;
  • Comissão Estadual Para a Sustentabilidade dos Povos e Comunidades Tradicionais – CESPCT, Grupo Intersetorial Quilombola- GIQ, Comitê Técnico Estadual de Saúde da População Negra (CTESPN); Rede de Combate ao Racismo a Intolerância Religiosa;
  • Participação em colegiados internos da SESAB transversalizando a questão racial, em toda a estrutura, como: Comitê Estadual de Humanização e Comitê Técnico de Estudos da Mortalidade Materna.


Legislação e normativas estaduais:

 

Materiais informativos:

Cartilha da Equidade Religiosa no SUS – Clique aqui para acessar

Referências:

  • BAHIA. Secretaria da Saúde do Estado. Diretoria de Gestão do Cuidado. Área Técnica de Saúde da Mulher. Política Estadual de Atenção Integral à Saúde da Mulher. 2016;
  • SILVA, Silvana Oliveira da et al. A cor e o sexo da fome: análise da insegurança alimentar sob o olhar da interseccionalidade. Cadernos de Saúde Pública, v. 38, p. e00255621, 2022;
  • BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa. Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. Política Nacional de Saúde Integral da População Negra : uma política para o SUS / Ministério da Saúde, Secretaria de Gestão Estratégica e Participativa, Departamento de Apoio à Gestão Participativa e ao Controle Social. – 3. ed. – Brasília : Editora do Ministério da Saúde, 2017. 44 p;
  • Oliveira, Fátima. Saúde da população negra : Brasil ano 2001 / Fátima Oliveira − Brasília: Organização Pan-Americana da Saúde, 2003;
  • WERNECK, J. Racismo Institucional e Saúde da População Negra. Saúde Soc São Paulo, v25, n.3, p.535-549, 2016.
  • ALMEIDA, S. O que é racismo estrutural? Belo Horizonte: Letramento, 2018. (Feminismos Plurais);
  • Bahia. Revista Baiana de Saúde Pública Plano Estadual de Saúde 2020-2023./ Secretaria da Saúde do Estado da Bahia. – v. 44, supl.1, jan./mar. 2020;
  • Bahia. Boletim Epidemiológico. Vigilância Epidemiológica: Ferramenta para Eliminação da Discriminação Racial. ./ Secretaria da Saúde do Estado da Bahia. Edição nº 02 , ano 2020.

 

Glossário

  • Equidade: O princípio da equidade norteia as políticas de saúde pública brasileira, reconhecendo necessidades de grupos específicos e atuando para reduzir o impacto das diferenças. No Sistema Único de Saúde (SUS) a equidade se evidencia no atendimento aos indivíduos de acordo com suas necessidades, oferecendo mais a quem mais precisa e menos a quem requer menos cuidados. Busca-se, com este princípio, reconhecer as diferenças nas condições de vida e saúde e nas necessidades das pessoas, considerando que o direito à saúde passa pelas diferenças sociais e deve atender a diversidade (Fonte: https://www.unasus.gov.br/noticia/voce-sabe-o-que-e-equidade#:~:text=No%20Sistema%20%C3%9Anico%20de%20Sa%C3%BAde,a%20quem%20requer%20menos%20cuidados.)
  • Racismo: “ O racismo é processo em que as condições de organização da sociedade reproduzem a subalternidade de determinados grupos que são identificados racialmente”( FONTE: https://www.cut.org.br/noticias/saiba-o-que-e-racismo-estrutural-e-como-ele-se-organiza-no-brasil-0a7d). O racismo é parte da ordem social e decorre da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, mais especificamente e concretamente este se expressa nas desigualdades política, econômica e jurídica, portanto não se trata de uma patologia social e nem de um desarranjo institucional. Enquanto processo político, o racismo cria as condições sociais para que, direta ou indiretamente, grupos racialmente identificados sejam discriminados de forma sistemática (Almeida, 2019)
  • Iniquidade: Iniquidades em saúde são desigualdades evitáveis ​​em saúde entre grupos de pessoas dentro de cada país e entre países. Essas desigualdades surgem de desigualdades dentro e entre as sociedades. As condições sociais e econômicas e seus efeitos na vida das pessoas determinam o risco de doença e as ações tomadas para evitar que adoeçam ou para tratar doenças quando isso ocorrer. (Fonte: https://dssbr.ensp.fiocruz.br/faqconc/o-que-sao-iniquidades-em-saude/)
  • Vulnerabilidade social: Não há consenso quanto ao conceito de vulnerabilidade social e seu uso. Alguns trabalhos e autores referem-se à vulnerabilidade como suscetibilidade à pobreza, outros como sintoma de pobreza, e outros a compreendem como uma das dimensões da pobreza. O que pode-se concluir é que a vulnerabilidade social envolve: insegurança de renda decorrente da precária inserção no mundo do trabalho; fragilidade das relações de proximidade/ frágil inserção relacional (campo relacional) ; moradia adequada, com abastecimento de água limpa e saneamento básico, acesso a serviços de saúde, escolas e transporte público de qualidade, entre outro; privação de “ativos” materiais e simbólicos (emprego, moradia, capital humano, capital social, entre outros), ou de incapacidade para manejar adequadamente os ativos que possuem, diante de situações de risco as quais estão submetidos. As vulnerabilidade sociais, é um espaço social de diferentes níveis de instabilidades e turbulências, portanto decorrem de processos sociais mais amplos contra os quais o indivíduo não tem meios para agir sozinho, tendo o Estado, por meio de políticas públicas, condições de alterar. ( Fonte: Texto para discussão / Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada.- Brasília : Rio de Janeiro : Ipea , 1990 – VULNERABILIDADE SOCIAL NO BRASIL: CONCEITOS, MÉTODOS E PRIMEIROS RESULTADOS PARA MUNICÍPIOS E REGIÕES METROPOLITANAS BRASILEIRAS/ Rio de Janeiro, janeiro de 2018).
  • Determinante social da saúde: A Organização Mundial de Saúde (OMS) assim define os DSS: “As circunstâncias nas quais as pessoas nascem, crescem, trabalham, vivem, e envelhecem, e o amplo conjunto de forças e sistemas que moldam as condições da vida cotidiana. Essas forças e sistemas incluem sistemas e políticas econômicas, agendas de desenvolvimento, normas sociais, políticas sociais e sistemas políticos”(Fonte: https://dssbr.ensp.fiocruz.br/dss-o-que-e/).

 

 

Coordenação de Promoção da Equidade em Saúde – CPES
Área Técnica de Saúde da População Negra
4° Avenida do CAB, n° 400, Lado B, 2° andar, Sala 210A – Salvador – Bahia
Tel: (71) 3115-4203 E-mail: dgc.cpes@saude.ba.gov.br

atualizado em março/2023