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Fundadora e diretora do CEDEBA, Reine Chaves: “Prevenção do Diabetes deve começar na escola”

13/11/2023 10:50

O  diabetes, que integra o rol das doenças crônicas, não tem cura, mas tem controle, observa a diretora e fundadora do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia(CEDEBA), endocrinologista Reine Chaves,  ao  ressaltar a importância do Dia Mundial do Diabetes -14 de novembro – quando o planeta se  mobiliza chamando  a  atenção    para  o crescimento do número de casos da doença em todo o mundo e  a importância de um estilo de vida saudável, além do diagnóstico na fase inicial e tratamento adequado .A educação em saúde ( com foco nas doenças crônicas, onde se destacam a obesidade, hipertensão e diabetes deve começar na escola). Muito importante também é o papel da  Atenção Primária de Saúde(APS)  na  prevenção, rastreamento e tratamento dos casos de diabetes. É  preciso  um esforço  conjunto para  conscientizar a população  sobre o risco e sobre a importância de manter a doença sob controle, para  evitar ou retardar as complicações que reduzem a qualidade de vida, incapacitam e podem causar  a mortes.

P – Por que os casos de  diabetes   vêm crescendo??

REINE CHAVES :  O diabetes ( principalmente o tipo 2, que representa 90% dos casos ) é uma doença  silenciosa. Seu crescimento   está   associado ao mudança de estilo de vida, pelo menor  gasto calórico nas tarefas  mais simples: o controle remoto dos televisores, o vidro elétrico dos carros, os elevadores. Quando se analisa a alimentação, percebe-se o  consumo abusivo de alimentos  ultraprocessados – em vez de comida de verdade – ricos em carboidratos. As duas  situações  concorrem  para o surgimento da obesidade, fator de risco para o  diabetes tipo2. E o risco aumenta  quando  há casos de diabetes na  família.

P –  E o aumento da expectativa de vida, como acontece no Brasil?

Os   casos de diabetes  tendem a crescer ainda mais  por causa do   aumento da expectativa de vida. O controle da doença, que não é fácil no paciente adulto por exigir mudanças no estilo de vida, no idoso é ainda mais complexo. No paciente idoso com DM2 é muito importante, avaliar a sarcopenia (perda de massa e força muscular decorrente do envelhecimento). Essa avaliação é feita com a densitometria óssea e bioimpedância, mas um exame simples feito com a fita métrica pode sinalizar a perda de massa muscular: circunferência da panturrilha inferior a 31 cm. A perda de massa e força muscular gera no idoso diminuição da mobilidade, aumento da incapacidade funcional e de sua dependência nas atividades, aumentando o risco de quedas e fraturas. Diabetes no idoso é mais grave nos pacientes que apresentam comorbidades como doenças  micro e macrovasculares, depressão, alterações cognitivas. A depressão, doença que avança no mundo, aumenta em duas vezes o risco de demências. Quanto mais doenças associadas, mais medicamentos. Os idosos usam três vezes mais medicamentos que os diabéticos não- idosos.

P – Além do   envelhecimento   da população, faixa etária  mais suscetível a doenças  crônicas, no caso do diabetes a doença  está chegando mais cedo?

Exatamente . O diabetes tipo  2,  antes  mais frequente em pessoas com mais de 40 anos, hoje  vem sendo  diagnosticado  em pessoas mais jovens, como  consequência do estilo de vida das crianças e adolescentes, que pouco  pulam e correm para queimar  calorias. As brincadeiras da infância foram substituídas  pela televisão  e  smartphones que  imobilizam por longos períodos crianças e adultos. E contribuindo   para  o aumento da obesidade, fator de risco  para  o DM2, totalmente  diferente do  DM1, doença  autoimune ,que pode se manifestar do bebe  ao adulto  jovem .Mas para esse  grupo a educação também é muito  importante, para  manter a glicemia sob controle e evitar  ou retardar as complicações  do diabetes.

P  – E quanto ao  diagnóstico , qual a realidade?

No Brasil   50%  das pessoas com  diabetes não têm diagnóstico. Ainda hoje, muitas pessoas  só recebem o diagnóstico quando são levadas  ao serviço de emergência por causa de um AVC (acidente vascular cerebral, infarto ou infecções graves nos pés). Nas mulheres, infecções ginecológicas repetidas  também alertam para a presença do diabetes. São 15 milhões de pessoas com diabetes no Brasil, o equivalente a mais de 7% da população. Nas pessoas  de maior nível de escolaridade, o diagnóstico e o tratamento  começam, geralmente, no  pré-diabetes, estágio  que antecede o diabetes, mas exige atenção.

P-  Diante  do  crescimento do diabetes, qual a importância da prevenção? Quando deve começar?

A prevenção deve   começar  na escola, com ensinamentos e prática de alimentação  saudável. As  cantinas da maioria das escolas  comercializam alimentos  ultraprocessados, ricos em  carboidratos e  gorduras trans, além de aditivos  químicos. Mas é muito  importante que família  e escola  ajam em sintonia, usando a  mesma linguagem. Seria interessante que  as escolas  ensinassem boas práticas de saúde. Importantes para a prevenção do diabetes e outras doenças  inflamatórias como  obesidade  e hipertensão.

.P-  Qual a importância da Atenção Primária de Saúde na prevenção e tratamento   do diabetes?

A  Atenção   Primária de Saúde   tem papel  imprescindível na  prevenção, rastreamento  e tratamento. Os casos   iniciais   de diabetes , ainda sem complicações, devem ser acompanhados  pela APS. Os endocrinologistas são poucos  para a quantidade de pessoas com diabetes. Nós, do Cedeba, temos um programa de educação permanente  para  qualificar os  médicos da Atenção Primária. E o Telecedeba, que permite ao médico especialista  orientar os médicos  da Atenção Primária  por meio da Teleconsultoria, foi um importante avanço.

P – As pessoas  sempre associam o tratamento do diabetes ao Cedeba…

O Cedeba é um Centro de Referência. Não foi concebido para atender todos os casos de diabetes. Além do acompanhamento dos casos  mais complexos, que precisam de especialistas (nefrologistas,  retinólogos, cirurgião  vascular, dentre outros), também é  multiplicador de conhecimentos, ao qualificar o pessoal da APS, além  de contribuir  para a formação de novos endocrinologistas  com a Residência Médica e estágios  para  profissionais de cursos da área de Saúde. Os casos   menos complexos de diabetes devem ser acompanhados na Atenção Primária de Saúde, em unidades  distribuídas pelos municípios da extensa  Bahia.

P- Ao receber o diagnóstico de diabetes, as pessoas pensam nas complicações, como amputação  e cegueira?

Quando  o diabetes é mantido sob controle as  complicações podem ser evitadas ou retardadas, São  muitas as complicações: pé  diabético (pode levar à amputação). Retinopatia  diabética (causa  importante de cegueira), doenças  micro e macrovasculares, problemas  renais. Para o controle das pessoas com diabetes, o apoio da família  é  fundamental. Além do acolhimento, a  família  pode colaborar, mudando o estilo de  vida, adotando uma alimentação saudável para  todos  por exemplo.

Qual sua  mensagem para o Dia Mundial  do Diabetes?

Que o 14 de Novembro seja  mais  um grito de alerta, fazendo  com que as autoridades  em  todo  o mundo destinem mais recursos  para o tratamento das pessoas com  diabetes, doença que, sem controle adequado, reduz a qualidade de vida, com as amputações, casos de cegueira, acidente vascular cerebral  renais crônicos. Pessoas em idade produtiva que  são retiradas do  mercado  de trabalho. Pessoas que não atingem a média de expectativa de vida. Mesmo sendo o diabetes um desafio para o planeta pelo crescimento da doença, o caminho da educação para aumentar a prevenção e estimular o autocuidado pode mudar a realidade.

Ascom do Cedeba

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