A Bahia tem dado passos importantes ao integrar tecnologia e inovação às rotinas da vigilância em saúde, tornando o monitoramento de doenças mais rápido, preciso e estratégico. Um exemplo marcante desse avanço foi a pesquisa financiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado da Bahia (Fapesb), órgão vinculado à Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação (Secti), por meio do Edital Programa de Pesquisa para o SUS (PPSUS), que desenvolveu uma metodologia inovadora para qualificar o registro, o cruzamento e a análise dos casos de Covid-19 no estado.
Durante a pandemia, ficou evidente que sistemas ágeis de informação são essenciais para salvar vidas. Os registros de casos de Covid-19 no Brasil eram distribuídos em diferentes plataformas do Ministério da Saúde – como o e-SUS Notifica, o GAL e o Sivep-Gripe – que não possuíam integração entre si. Essa fragmentação favorecia a duplicidade de registros e inconsistências nas informações, dificultando a leitura do cenário epidemiológico e a tomada de decisões por parte da gestão pública.
Nesse contexto, a pesquisa criou uma solução tecnológica inédita: uma metodologia computacional capaz de cruzar diariamente diversas bases federais de informação em saúde e minerar dados com alta precisão. De acordo com o professor Marcio Luis Valença Araújo, do Instituto Federal da Bahia (IFBA), que coordenou o projeto, o impacto da solução começa pela qualificação da informação. “A principal contribuição da pesquisa é a criação de uma vigilância mais integrada, inteligente e eficiente no Sistema Único de Saúde”, afirma.
A ferramenta, baseada em técnicas avançadas de análise de séries temporais, permite identificar quantidade de vírus presente no corpo, acompanhar a evolução da doença e antecipar mudanças no comportamento epidemiológico. Para o pesquisador, esse avanço muda diretamente a capacidade de resposta do sistema. “A metodologia desenvolvida permitiu unificar e qualificar dados, reduzindo erros e melhorando a análise epidemiológica”, explica.
Legado tecnológico
O impacto prático vai além da Covid-19. O modelo desenvolvido teve potencial para ser incorporado ao SUS como um recurso permanente, fortalecendo a vigilância epidemiológica e outras doenças, como, por exemplo, Dengue, Zika e Chikungunya, consideradas arboviroses. Entre suas principais funções, destacam-se a emissão de alertas precoces, a identificação de emergências sanitárias antes de sua consolidação, o apoio às decisões dos gestores e a qualificação das ações de prevenção, proteção e recuperação da população.
Na avalição de Marcio Araújo, esse ganho também reflete diretamente na gestão pública. “Com isso, gestores podem tomar decisões mais rápidas e planejar melhores ações de saúde”, pontua. Para a população, os efeitos também são concretos. “O impacto é direto: respostas mais ágeis a emergências, melhor organização dos serviços e maior proteção à saúde”, acrescenta o professor, destacando ainda que o projeto deixa uma base sólida para o futuro. “Além disso, fica uma infraestrutura tecnológica e científica duradoura”, completa.
Colaboração estratégica
Construído com forte colaboração entre cientistas e profissionais da vigilância estadual, o projeto mostra como a tecnologia — quando aliada à gestão pública — pode transformar dados em respostas rápidas e efetivas. Essa transformação também é destacada por Ana Claudia Nunes Barbosa, analista técnica da Superintendência de Gestão dos Sistemas de Regulação à Saúde (Suregs), da Secretaria da Saúde da Bahia (Sesab). Segundo ela, o avanço ganhou força especialmente durante a pandemia. “Foi quando desenvolvemos uma estratégia de integração entre diferentes bases de dados. Esse avanço possibilitou não apenas reunir informações dispersas, mas transformá-las em dados qualificados e oportunos, essenciais para subsidiar a tomada de decisão pelos gestores”, explica.
Ana Cláudia também ressaltou que a experiência acumulada ampliou o alcance da estratégia. “Esse legado consolidou uma nova forma de fazer vigilância em saúde, permitindo respostas mais ágeis e assertivas. A experiência adquirida durante a pandemia impulsionou avanços no enfrentamento de outras pandemias no estado, como as arboviroses em 2024”. Segundo ela, isso fortaleceu a capacidade de análise e monitoramento. “Ampliamos a capacidade para o desenvolvimento das ações de saúde da população”, afirma.
Atualmente, o modelo segue em expansão dentro da própria estrutura estadual. “Esse modelo vem sendo expandido em diferentes áreas da Sesab, a exemplo da Superintendência de Regulação”, concluiu.
Edital PPSUS
O Programa de Pesquisa para o SUS é uma iniciativa que busca aproximar a produção científica das necessidades reais da saúde pública brasileira. Realizado por meio de parceria entre as Fundações de Amparo à Pesquisa (FAPs) dos estados, o Ministério da Saúde, o CNPq e as Secretarias da Saúde dos estados, o edital financia pesquisas aplicadas voltadas para a solução de desafios do SUS. Na Bahia, o programa já apoiou mais de 300 projetos científicos desde 2004, com investimento superior a R$ 26 milhões. Apenas na 8ª edição do edital, lançada em 2025, foram destinados R$ 10 milhões para financiar pesquisas voltadas a desafios prioritários do Sistema único de Saúde, com apoio de até R$ 200 mil por projeto.
Para o diretor da Fapesb, Handerson Leite, iniciativas como essa destacam a importância do fomento à ciência voltada às demandas reais da sociedade. “A Fapesb tem o compromisso de apoiar pesquisas que dialoguem diretamente com as necessidades da população. Quando investimos em ciência, fortalecemos a capacidade do Estado de responder com mais agilidade e eficiência aos desafios da sociedade, transformando conhecimento em soluções concretas, neste caso, para o SUS.”
22/04/2026 10:15
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