O diabetes, que integra o rol das doenças crônicas, não tem cura, mas tem controle, observa a diretora e fundadora do Centro de Diabetes e Endocrinologia da Bahia(CEDEBA), endocrinologista Reine Chaves, ao ressaltar a importância do Dia Mundial do Diabetes -14 de novembro – quando o planeta se mobiliza chamando a atenção para o crescimento do número de casos da doença em todo o mundo e a importância de um estilo de vida saudável, além do diagnóstico na fase inicial e tratamento adequado .A educação em saúde ( com foco nas doenças crônicas, onde se destacam a obesidade, hipertensão e diabetes deve começar na escola). Muito importante também é o papel da Atenção Primária de Saúde(APS) na prevenção, rastreamento e tratamento dos casos de diabetes. É preciso um esforço conjunto para conscientizar a população sobre o risco e sobre a importância de manter a doença sob controle, para evitar ou retardar as complicações que reduzem a qualidade de vida, incapacitam e podem causar a mortes.
P – Por que os casos de diabetes vêm crescendo??
REINE CHAVES : O diabetes ( principalmente o tipo 2, que representa 90% dos casos ) é uma doença silenciosa. Seu crescimento está associado ao mudança de estilo de vida, pelo menor gasto calórico nas tarefas mais simples: o controle remoto dos televisores, o vidro elétrico dos carros, os elevadores. Quando se analisa a alimentação, percebe-se o consumo abusivo de alimentos ultraprocessados – em vez de comida de verdade – ricos em carboidratos. As duas situações concorrem para o surgimento da obesidade, fator de risco para o diabetes tipo2. E o risco aumenta quando há casos de diabetes na família.
P – E o aumento da expectativa de vida, como acontece no Brasil?
Os casos de diabetes tendem a crescer ainda mais por causa do aumento da expectativa de vida. O controle da doença, que não é fácil no paciente adulto por exigir mudanças no estilo de vida, no idoso é ainda mais complexo. No paciente idoso com DM2 é muito importante, avaliar a sarcopenia (perda de massa e força muscular decorrente do envelhecimento). Essa avaliação é feita com a densitometria óssea e bioimpedância, mas um exame simples feito com a fita métrica pode sinalizar a perda de massa muscular: circunferência da panturrilha inferior a 31 cm. A perda de massa e força muscular gera no idoso diminuição da mobilidade, aumento da incapacidade funcional e de sua dependência nas atividades, aumentando o risco de quedas e fraturas. Diabetes no idoso é mais grave nos pacientes que apresentam comorbidades como doenças micro e macrovasculares, depressão, alterações cognitivas. A depressão, doença que avança no mundo, aumenta em duas vezes o risco de demências. Quanto mais doenças associadas, mais medicamentos. Os idosos usam três vezes mais medicamentos que os diabéticos não- idosos.
P – Além do envelhecimento da população, faixa etária mais suscetível a doenças crônicas, no caso do diabetes a doença está chegando mais cedo?
Exatamente . O diabetes tipo 2, antes mais frequente em pessoas com mais de 40 anos, hoje vem sendo diagnosticado em pessoas mais jovens, como consequência do estilo de vida das crianças e adolescentes, que pouco pulam e correm para queimar calorias. As brincadeiras da infância foram substituídas pela televisão e smartphones que imobilizam por longos períodos crianças e adultos. E contribuindo para o aumento da obesidade, fator de risco para o DM2, totalmente diferente do DM1, doença autoimune ,que pode se manifestar do bebe ao adulto jovem .Mas para esse grupo a educação também é muito importante, para manter a glicemia sob controle e evitar ou retardar as complicações do diabetes.
P – E quanto ao diagnóstico , qual a realidade?
No Brasil 50% das pessoas com diabetes não têm diagnóstico. Ainda hoje, muitas pessoas só recebem o diagnóstico quando são levadas ao serviço de emergência por causa de um AVC (acidente vascular cerebral, infarto ou infecções graves nos pés). Nas mulheres, infecções ginecológicas repetidas também alertam para a presença do diabetes. São 15 milhões de pessoas com diabetes no Brasil, o equivalente a mais de 7% da população. Nas pessoas de maior nível de escolaridade, o diagnóstico e o tratamento começam, geralmente, no pré-diabetes, estágio que antecede o diabetes, mas exige atenção.
P- Diante do crescimento do diabetes, qual a importância da prevenção? Quando deve começar?
A prevenção deve começar na escola, com ensinamentos e prática de alimentação saudável. As cantinas da maioria das escolas comercializam alimentos ultraprocessados, ricos em carboidratos e gorduras trans, além de aditivos químicos. Mas é muito importante que família e escola ajam em sintonia, usando a mesma linguagem. Seria interessante que as escolas ensinassem boas práticas de saúde. Importantes para a prevenção do diabetes e outras doenças inflamatórias como obesidade e hipertensão.
.P- Qual a importância da Atenção Primária de Saúde na prevenção e tratamento do diabetes?
A Atenção Primária de Saúde tem papel imprescindível na prevenção, rastreamento e tratamento. Os casos iniciais de diabetes , ainda sem complicações, devem ser acompanhados pela APS. Os endocrinologistas são poucos para a quantidade de pessoas com diabetes. Nós, do Cedeba, temos um programa de educação permanente para qualificar os médicos da Atenção Primária. E o Telecedeba, que permite ao médico especialista orientar os médicos da Atenção Primária por meio da Teleconsultoria, foi um importante avanço.
P – As pessoas sempre associam o tratamento do diabetes ao Cedeba…
O Cedeba é um Centro de Referência. Não foi concebido para atender todos os casos de diabetes. Além do acompanhamento dos casos mais complexos, que precisam de especialistas (nefrologistas, retinólogos, cirurgião vascular, dentre outros), também é multiplicador de conhecimentos, ao qualificar o pessoal da APS, além de contribuir para a formação de novos endocrinologistas com a Residência Médica e estágios para profissionais de cursos da área de Saúde. Os casos menos complexos de diabetes devem ser acompanhados na Atenção Primária de Saúde, em unidades distribuídas pelos municípios da extensa Bahia.
P- Ao receber o diagnóstico de diabetes, as pessoas pensam nas complicações, como amputação e cegueira?
Quando o diabetes é mantido sob controle as complicações podem ser evitadas ou retardadas, São muitas as complicações: pé diabético (pode levar à amputação). Retinopatia diabética (causa importante de cegueira), doenças micro e macrovasculares, problemas renais. Para o controle das pessoas com diabetes, o apoio da família é fundamental. Além do acolhimento, a família pode colaborar, mudando o estilo de vida, adotando uma alimentação saudável para todos por exemplo.
Qual sua mensagem para o Dia Mundial do Diabetes?
Que o 14 de Novembro seja mais um grito de alerta, fazendo com que as autoridades em todo o mundo destinem mais recursos para o tratamento das pessoas com diabetes, doença que, sem controle adequado, reduz a qualidade de vida, com as amputações, casos de cegueira, acidente vascular cerebral renais crônicos. Pessoas em idade produtiva que são retiradas do mercado de trabalho. Pessoas que não atingem a média de expectativa de vida. Mesmo sendo o diabetes um desafio para o planeta pelo crescimento da doença, o caminho da educação para aumentar a prevenção e estimular o autocuidado pode mudar a realidade.
Ascom do Cedeba
13/11/2024 15:51
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